Por ruas lavadas de sangue em tormento se passeia Eleonor. Os brancos cabelos caem tépidos na sua face já macerada pelo tempo. As suas roupas, ricas em nódoas indagam ao corpo um odor seu. Nem bom nem mau. Seu. A rua escura ilumina-se de um único raio… Começa subtil, fechado e estreito e abre-se em flecha num repente, sórdido. Desce altivo um ser abominável carregado de crostas abertas em sangue morto e seco. O seu coração bombeia fora do corpo agitando em cada batida milhares de poluentes invisíveis filhos da cidade. Os carros circulam e no beco de súbito fecham-se dois muros e cercam Eleonor. A figura aproxima-se devagar deslizando sem ruído levando consigo a aragem reles. Num golpe

instantâneo ata-lhe a glote. Eleonor gela e o seu sangue é pressionado, até as órbitas de seus olhos incharem ao exterior. Soa-lhe à memória os campos inundados de malmequeres que reflectiam aquele sol único da sua infância. Sente-se livre e corre alegremente ouvindo com nitidez o eco das suas próprias risadas. Num sussurro que a traz à vida a besta sai-se:
- Vem comigo Eleonor. És minha. Quero-te no meu reino.
Soprou-lhe um hálito a ferro que lhe varreu as roupas e as rugas que lhe cobriam o rosto. A besta pintou o corpo de Eleonor sangue espremido do seu próprio coração. De um impulso arrancou o de Eleonor. Que se libertou para sempre.
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