sábado, 5 de dezembro de 2009

Matéria

Em um milhão de crateras
Diga adeus à perícia
Grandiosidades são quimeras
Da mesquinhez que é estultícia!

Rebentou uma supernova
Lá no espço de Galileu
Diferente de até agora
Serviu para aclarar o breu.

E o acelerador de matéria...!
Tão enorme pra reter!
Sacou a ciência da miséria
De novo se rebate o ver para crer.

domingo, 8 de novembro de 2009

Eleonor

Por ruas lavadas de sangue em tormento se passeia Eleonor. Os brancos cabelos caem tépidos na sua face já macerada pelo tempo. As suas roupas, ricas em nódoas indagam ao corpo um odor seu. Nem bom nem mau. Seu. A rua escura ilumina-se de um único raio… Começa subtil, fechado e estreito e abre-se em flecha num repente, sórdido. Desce altivo um ser abominável carregado de crostas abertas em sangue morto e seco. O seu coração bombeia fora do corpo agitando em cada batida milhares de poluentes invisíveis filhos da cidade. Os carros circulam e no beco de súbito fecham-se dois muros e cercam Eleonor. A figura aproxima-se devagar deslizando sem ruído levando consigo a aragem reles. Num golpeAdicionar vídeo instantâneo ata-lhe a glote. Eleonor gela e o seu sangue é pressionado, até as órbitas de seus olhos incharem ao exterior. Soa-lhe à memória os campos inundados de malmequeres que reflectiam aquele sol único da sua infância. Sente-se livre e corre alegremente ouvindo com nitidez o eco das suas próprias risadas. Num sussurro que a traz à vida a besta sai-se:
- Vem comigo Eleonor. És minha. Quero-te no meu reino.
Soprou-lhe um hálito a ferro que lhe varreu as roupas e as rugas que lhe cobriam o rosto. A besta pintou o corpo de Eleonor sangue espremido do seu próprio coração. De um impulso arrancou o de Eleonor. Que se libertou para sempre.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Inútil

E sozinha no mundo
Acrescentei um agregado,
Aproveito a dualidade a fundo
O mundo é-me dado de bom grado.

Entre ruas desertas aprofundo
Um mal que me cresce meio torpe
Páro um pouco... Um vagabundo.
Ignoro. Sigo a sorte.

Sinto o pano ao corpo colado
Nele um cheiro nauseabundo
Solto um sorriso rasgado
Pensando nele incluir o submundo.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Imprecisão

No breu esconde-se a dor.
Sente-se a ferida rasgar a pele.
A solidão irrompe dum tal esplendor
Como e para que a solidão zele.
E a solidão cuida e arrasta
Em seu seio cai um sorriso.
Do esplendor uma lágrima nefasta.
O sorriso é impreciso
Pois uma só lágrima de esplendor,
Não, não chega…
Para mim não basta.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Ao Spree que passa diante da janela

Vejo-o turvo em salpicos de luz, numa andança ligeira por debaixo das nuvens. Tremelicando segue a jusante sem pressa. Apesar das nuvens os pássaros chilreiam e desafiam as suas águas. Ele é doce e tolera o capricho das aves... mas eis que de súbito, os pássaros se aproximam demasiado e lhe tocam a epiderme. Arrancam-lhe gotículas dos seus tremores. Uma e outra vez... o movimento torna-se insensato e abusivo, ritmado ao som do canto. Numa nuvem interior que emerge a superfície, Spree explode! Afasta tudo o que ali passa. Alcança os humanos da margem e embala-os no turbilhão. Os pássaros perdem o norte, atordoados esvoaçam sem compasso. Tudo acalma num repente. Spree funde-se com a chuva entristece-se com os estragos...E nada disso passou de uma emoção.